Ne segunda metade da década de 80, as Berlins, separadas pelo muro, ainda dividiam famílias e amigos, mas era só um obstáculo. Viver além dos limites era o grande desafio. Nesse cenário, num mundo cheio de contradições, algumas esperanças mínimas surgiam entre as rachaduras. Rachaduras invisíveis.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Christof Vonderau
O berlinense Christof Vonderau estará na abertura da São Leopoldo Fest no dia 24 de julho, às 11 horas. Ele executará algumas composições própria e depois se unirá ao grupo leopoldense “Buquezeiros” para tocar alguns dos mais conhecidos chorinhos de grandes compositores brasileiros. Além disso, haverá no espaço pensamento uma palestra de Vonderau sobre música e cinema.
O músico e compositor Christof Vonderau nasceu e vive em Berlim. Depois de aderir aos estudos clássicos em Berlim e também em outras cidades da Europa, passou dois anos no Brasil estudando e pesquisando a nossa cultura, como a literatura de Cordel, a cultura indígena e a música. Depois estudos na Universidade Livre de Berlim em ethnomusicologia, participou em diferentes projetos musicais e estudos com passagens por Nova York e Jamaica. Momento em que ele começou a desenvolver uma música expressiva e calma, resultando em cooperação com outros artistas e outras linguagens como o teatro e o cinema. Christof tem em seu currículo a produção de trilhas sonoras para mais de quarenta filmes de várias nacionalidades. Seu último trabalho foi o documentário My Father. My Uncle.
Já Individualmente, Christof lançou seu CD de estréia Polar (1996) - dedicado ao explorador dinamarquês Groenlândia Knud Rasmussen – que foi licenciado para vários documentários. Depois lançou o CD Cave paiting e seu último trabalho se chama Lightscape
Já Individualmente, Christof lançou seu CD de estréia Polar (1996) - dedicado ao explorador dinamarquês Groenlândia Knud Rasmussen – que foi licenciado para vários documentários. Depois lançou o CD Cave paiting e seu último trabalho se chama Lightscape
quinta-feira, 17 de junho de 2010
HOMO ERECTUS
MARCELINO FREIRE
Sabe o Homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia? Enrolado? Os arqueólogos encontraram no gelo gelado da Prússia? Perto das colinas calcáreas da Prússia? O Homem feito um feto gelado, com sua vara de pesca? Sabe o Homem que encontraram? Com seu machado de pedra? O Homem que tinha cabeleira intacta? A arcada dentária? O Homem meio macaco? Funerário? Fossilizado na encosta que o engoliu? No tempo perdido? Você viu? Tetravô dos mamíferos do Brasil? O Homem vestígio? O Homem engolido pela terra primitiva? Da Era Quaternária, não sei? Secundária? Que caçava avestruz sem plumas? Caçava o cervo turfeiras? Javali e mastedonte? Ia aos mares fisgar celacanto? Rinoceronte? Sabe deste Homem? Irmão do Homem de Piltdown? Primo do Homem de Neandertal? Do velho Cro-Magnon? Do Homem de Mauer? Dos Incas, até? Dos Filhos do Sol? Das tribos da Guiné? O Homem de 100 mil anos antes de nossa era? Ou mais? Um milhão de eras? Homem com mandíbula de chimpanzé? Parecido o mais terrível dos répteis carnívoros do Cretáceo? Um mistério maior que este mistério? Navegador de jacaré? Não sabe? Homem desenterrado por acaso? Pelos viajantes, por acaso? Pela Paleontologia, não sabe? Visto nas costelas frias da Prússia, repito? Prússia renana, vá saber lá o que é isso? O Homem ressuscitado, você viu na TV? De ossos miúdos? Esmiuçados? Abertos para estudo? À visitação nos museus americanos? Como uma múmia sem roupa? Quase? Flagrada como se estivesse dormindo nas profundezas do mundo oceânico? O Homem embrionário? Das origens cavernosas da Humanidade? Sabe este Homem, não sabe? Pintado nas cavernas da Dordonha? Mesolítico? Nômade? Perdido? Este Homem dava o cu para outros homens. E ninguém, até então, tinha nada a ver com isso.
Sabe o Homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia? Enrolado? Os arqueólogos encontraram no gelo gelado da Prússia? Perto das colinas calcáreas da Prússia? O Homem feito um feto gelado, com sua vara de pesca? Sabe o Homem que encontraram? Com seu machado de pedra? O Homem que tinha cabeleira intacta? A arcada dentária? O Homem meio macaco? Funerário? Fossilizado na encosta que o engoliu? No tempo perdido? Você viu? Tetravô dos mamíferos do Brasil? O Homem vestígio? O Homem engolido pela terra primitiva? Da Era Quaternária, não sei? Secundária? Que caçava avestruz sem plumas? Caçava o cervo turfeiras? Javali e mastedonte? Ia aos mares fisgar celacanto? Rinoceronte? Sabe deste Homem? Irmão do Homem de Piltdown? Primo do Homem de Neandertal? Do velho Cro-Magnon? Do Homem de Mauer? Dos Incas, até? Dos Filhos do Sol? Das tribos da Guiné? O Homem de 100 mil anos antes de nossa era? Ou mais? Um milhão de eras? Homem com mandíbula de chimpanzé? Parecido o mais terrível dos répteis carnívoros do Cretáceo? Um mistério maior que este mistério? Navegador de jacaré? Não sabe? Homem desenterrado por acaso? Pelos viajantes, por acaso? Pela Paleontologia, não sabe? Visto nas costelas frias da Prússia, repito? Prússia renana, vá saber lá o que é isso? O Homem ressuscitado, você viu na TV? De ossos miúdos? Esmiuçados? Abertos para estudo? À visitação nos museus americanos? Como uma múmia sem roupa? Quase? Flagrada como se estivesse dormindo nas profundezas do mundo oceânico? O Homem embrionário? Das origens cavernosas da Humanidade? Sabe este Homem, não sabe? Pintado nas cavernas da Dordonha? Mesolítico? Nômade? Perdido? Este Homem dava o cu para outros homens. E ninguém, até então, tinha nada a ver com isso.
Palpitações
Foi ao médico.
- O senhor fuma?
- ahhãn.
- O senhor bebe?
- Só quando fumo.
- Sexo?
- Só quando bebo.
- Anda se incomodando?
- Só quando me fodem.
- Anda nervoso?
- Quando me incomodo.
- E daí o que o senhor faz?
- Fumo, bebo e acabo fodendo alguém.
domingo, 30 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
De Carlos para nosotros
PROCURA DA POESIA
Não faça versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é a música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de
espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Não faça versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é a música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de
espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Por do sol
Graças ao aviso de uma amiga querida, alcançamos o sol que se punha, alheio à nossa preocupações e correrias do dia-a-dia. Que maravilha!
sábado, 1 de maio de 2010
terça-feira, 27 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Um muro
sábado, 27 de março de 2010
Dia Mundial do Teatro
sábado, 20 de março de 2010
Vídeo de Zagreb - Croacia
Viagem à Zagreb na Croácia com o parceiro de Trip Marcello Lacroix, onde conhecemos pessoas maravilhosas num país lindo, acolhedor com uma história fantástica.
Voyage à Zagreb. Où nous avons rencontré des gens sympas dans une ambiance chaleureuse et belle.
Travel to Zagreb, Croatia. A warm and beautiful place, where we met wonderful people.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Sarau no Satolep
No segundo Sarau do Satolep Café estarei falando sobre o processo de criação de meu romance Berlin,Berlim. Farei uma leitura inédita de alguns trechos do livro e ainda comentarei sobre a última viagem à Berlim, em fevereiro, para completar a pesquisa. Além disso haverá outros convidados que também farão intervenções com poemas e música.
O Satolep fica na Av. Independência 1213A - Centro São Leopoldo - RS fone: (51) 3037-1089
quinta-feira, 4 de março de 2010
Aviso aos amigos
Chers visiteurs! Je suis en transit. À l'heure actuelle, de Berlin à Paris. Une fois que vous revenez au Brésil, je posterai des photos, vidéos et textes. La semaine prochaine, je serai déjà sur le sol brésilien.
Merci!
Caros visitantes! Estou em transito. No momento, de Berlim a Paris. Assim que retornar ao Brasil, postarei fotos, textos e videos. Semana que vem ja estarei em solo brasileiro.
Obriagdo!
Dear visitors! I'm in transit. At present, from Berlin to Paris. Once you return to Brazil, I'll post photos, videos and texts. Next weeck I´ll be already in Brazil.
Thank You!
Sehr geehrter Besucher! Ich bin auf der Durchreise. Zur Zeit von Berlin nach Paris. Wenn ich nach Brasilien zurück, werde ich Fotos, Videos und Texte post. Nächste Woche werde ich bereits auf brasilianischen Boden sein.
Danke!
Merci!
Caros visitantes! Estou em transito. No momento, de Berlim a Paris. Assim que retornar ao Brasil, postarei fotos, textos e videos. Semana que vem ja estarei em solo brasileiro.
Obriagdo!
Dear visitors! I'm in transit. At present, from Berlin to Paris. Once you return to Brazil, I'll post photos, videos and texts. Next weeck I´ll be already in Brazil.
Thank You!
Sehr geehrter Besucher! Ich bin auf der Durchreise. Zur Zeit von Berlin nach Paris. Wenn ich nach Brasilien zurück, werde ich Fotos, Videos und Texte post. Nächste Woche werde ich bereits auf brasilianischen Boden sein.
Danke!
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Acidente em Zagreb
O trânsito em Zagreb é extremamente tranquilo. Acidentes como esse são raros, pois há um ingrediente importante para a mobilidade de Zagreb: tolerância.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Em tempos de Fórum
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Fórum Social Mundial - São Leopoldo-RS-Brasil
domingo, 24 de janeiro de 2010
Diário de Viagem (1)
O diário de viagem começa antes da viagem propriamente dita. Há os preparativos, os contatos e uma série de organizações para que tudo ocorra ao máximo dentro das expectativas. Portanto, vamos ao plano A.A idéia é sair de POA no dia 14 de fevereiro às 15 horas, passar por São Paulo e, finalmente dirigir-se à primeira parada na Europa. Frankfurt é esta parada, devo chegar lá às 14 horas o que não deve ser problema dada a pontualidade germânica. Às 17h40min através da Air Croácia chegarei a Zagreb no finalzinho da tarde.
Bueno! Em Zagreb, teremos tempo para curtir a capital croata, não antes, é claro, de dormir e se recuperar dos vôos. Então, já estaremos no dia 16 de fevereiro, o que nos dá a idéia clara de que dois dias foram pra banha.
Imagino acordar em Zagreb num hotelzinho com preços atrativos e provar pela primeira vez o café da manhã na Croácia. Se conseguir levantar antes da dez para não perder o lanchinho, dá pra sair pela cidade antes das onze. Teremos o dia inteiro para conhecer uma cidade, que segundo os próprios croatas é o verdadeiro coração da Europa. Além dos mais de um milhão de habitantes, dos quais mais de 90% são croatas, há uma enormidade de museus, galerias e monumentos.
Veremos o que veremos lá. Vou embora pra Zagreb!
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Separado no mercado
A primeira vez que tive coragem de ir ao supermercado após a separação, rendeu vários questionamentos e entendimentos. Em primeiro lugar o sinal de cura, pois, após semanas de geladeira vazia e despensa largada aos bichos surge, pela primeira vez, o desejo de buscar mantimentos para o lar refeito. O resultado disso é outro aspecto positivo, pois se não havia comida é porque eu não comia. Em pouco tempo se consegue resultados visíveis a uma velocidade de dois quilos por semana. Os comentários são os mais variados: “ta caidaço, com AIDS, fez regime” e sai até um “tá elegante”. A barriga some e a papada debaixo do queixo desaparece como num passe cirúrgico. Mas, voltando às compras, lembrei que isso acontecia no início do relacionamento e, naquela época, comprávamos vinhos, muitos vinhos, cigarros, lasanhas, e espaguete que era feito com molho branco. Havia os chocolates para recuperar a energia pós horas trancados entre suores e banhos revigorantes.
A primeira limitação que percebi ao passear pelo mercado foi o peso. Como o carro se foi junto com o amor, agora precisaria pensar muito bem no que levar, pois tudo o que tinha era uma mochila e o espaço reservado para o capacete debaixo do banco de uma lambretinha Honda Biz. À medida que ia colocando as mercadorias no cesto percebi que o volume também era importante. Embalagens espalhafatosas não são bem-vindas. Caixas e bandejas devem ser substituídas por embalagens que moldam a mercadoria. Então, desta vez, vi-me cercado de cuidados básicos que vão muito além do valor das mercadorias e do total das compras. Mas, devo lembrar, as necessidades diminuíram pela metade. Não preciso mais me preocupar com as coisas que ela gostava ou julgava insubstituíveis. Essa sensação de liberdade veio acompanhada com uma sobra considerável de dinheiro, que pude reverter em caprichos que há anos não me permitia. Mas, devo confessar que volta e meia vi-me pelos corredores olhando preços de Aveia Quaker, Farinha Láctea e Bibs, a mudança não é tão radical quanto queremos. De qualquer sorte, o aprendizado foi apresentado de maneira prática, experiencial. Ao passar pelo caixa, entendi que comprar faz bem ao coração. Saí do mercado feliz e com vontade de voltar.
A primeira limitação que percebi ao passear pelo mercado foi o peso. Como o carro se foi junto com o amor, agora precisaria pensar muito bem no que levar, pois tudo o que tinha era uma mochila e o espaço reservado para o capacete debaixo do banco de uma lambretinha Honda Biz. À medida que ia colocando as mercadorias no cesto percebi que o volume também era importante. Embalagens espalhafatosas não são bem-vindas. Caixas e bandejas devem ser substituídas por embalagens que moldam a mercadoria. Então, desta vez, vi-me cercado de cuidados básicos que vão muito além do valor das mercadorias e do total das compras. Mas, devo lembrar, as necessidades diminuíram pela metade. Não preciso mais me preocupar com as coisas que ela gostava ou julgava insubstituíveis. Essa sensação de liberdade veio acompanhada com uma sobra considerável de dinheiro, que pude reverter em caprichos que há anos não me permitia. Mas, devo confessar que volta e meia vi-me pelos corredores olhando preços de Aveia Quaker, Farinha Láctea e Bibs, a mudança não é tão radical quanto queremos. De qualquer sorte, o aprendizado foi apresentado de maneira prática, experiencial. Ao passar pelo caixa, entendi que comprar faz bem ao coração. Saí do mercado feliz e com vontade de voltar.
A construção do desamor ou a paixão pelo fim
Quando iniciei a construção da personagem Dinah, que, na verdade, eu havia roubado do fotógrafo Luiz Eduardo Achutti. Dinah é o nome verdadeiro de uma pessoa real em quem me baseei. Uma fotografia e uma pequena história, muito bem narrada, sobre aquela desconhecida foram suficientes para elegê-la. Nada melhor do que construir algo a partir do desconhecido. O Achutti que me perdoe, mas não resisti.
Acontece que, ao tentar narrar o início do relacionamento do protagonista com sua amada, faltava-me competência narrativa. O romance empacou e por mais que eu tentasse, não conseguia. Não cheguei a ficar frustrado, e acreditava que o tempo se encarregaria disto. O romance tomou corpo, a história estava interessante e os fatos reais muito bem entremeados à ficção. Mas, nada de paixão. Era uma paixão vazia, sem gosto e sem cheiro. Talvez eu me sentisse culpado em sentir uma paixão pela personagem, como se fosse uma traição, por isso eu não abria a guarda, nem para alguém ficcional. Abrir, então, para alguém de carne seria mais perigoso ainda, embora o coração esteja bem protegido, bem a cima do buraco, que é mais embaixo.
Foi quando surgiu a idéia de começar pelo fim. Como seria o fim daquele romance? Quem trairia quem, haveria traição ou seria apenas fruto do desgaste? Talvez, se pensássemos no fim, nem começaríamos nada. Mas, a vida é assim, não? Então imaginei cenas de alguém atordoado pelo abandono, pela surpresa de ser descartado.
Imaginei o sujeito, depois de ter vivido intensamente por anos a cumplicidade, os mesmos pecados, as mesmas angústias e os mesmos prazeres da vida, como, por exemplo, o milagre de ter um filho ou filha. Agora, imagine futuro leitor, esse sujeito, que se aproximou da família, dos amigos e dos hábitos da mulher ideal, sentir-se completamente só, enxovalhado? Para dar ainda mais dramaticidade, pensemos num final de ano. A família, para quem, a partir de então, ele será um canalha, um malfeitor da filha e possivelmente um pai perigoso - digamos um psicopata - reunida numa casa de veraneio com o novo genro. Abraçado à ex-mulher do monstro, diante do filho ou filha e estourando um espumante, de qualidade duvidosa, desejando um feliz ano novo para todos, menos, é claro, para o pervertido abandonado.
Vamos piorar ainda mais. O sujeito rejeitado, na cidade, que está abandonada, pegando um metrô às nove horas da noite, numa estação de trem totalmente vazia, se dirigindo para uma festa para a qual fora convidado, mas com um pequeno detalhe: não sabe nem quem são as pessoas. Gente estranha? E, neste momento ele se vê no lugar errado, onde jamais havia imaginado. No seu lugar está outro estranho, junto com sua ex-mulher e seu filho (a). A partir desta crueldade, podemos fazer o caminho contrário para a construção de uma paixão entre duas pessoas que, supostamente, nasceram uma para outra. A única diferença é que já sabemos o final. Eis a importância da ignorância, pois ela nos torna felizes e protegidos de nossa própria desgraça. Dá quase para imaginar o sujeito enforcado em plena estação São Pedro, minutos antes da meia noite. Mas, daí já estamos esculhanbando.
Voltando à Dinah e, tentando manter a magia do descobrimento, desde que a vi – na foto ela usava um lenço vermelho na cabeça - com aquele olhar triste e melancólico, comecei a imaginá-la em movimento. Ao mesmo tempo em que tinha aquele olhar quando estava contemplativa, ao começar a falar seu rosto adquiria uma intensidade fantástica. É como se ao iniciar uma conversação ela se transformasse. O rosto se ilumina e os olhos se parecem como os de criança. Neste instante, a palavra que mais a define é curiosidade. Dinah quer saber tudo sobre a vida e os hábitos de seu interlocutor, porém ele nunca saberá se ela realmente o ama. Ela sabe que sim, mas, ou ele não consegue captar isso nela ou ela não sabe ou não se importa em não transparecer. Isso o incomodará e o arruinará quando ela resolver abandoná-lo, pois não haverá variação nos modos e olhares, quando tudo terminar. Eis a ignorância novamente, desta vez, para sua desgraça. Pois o golpe vem de uma só vez e é certeiro. No meio do coração.
Agora, já posso viver essa paixão de Eduardo e Dinah vivida em medos dos anos oitenta entre as duas Berlins, seus dois mundos, o sul (da América Latina) e o leste (da Europa).
Acontece que, ao tentar narrar o início do relacionamento do protagonista com sua amada, faltava-me competência narrativa. O romance empacou e por mais que eu tentasse, não conseguia. Não cheguei a ficar frustrado, e acreditava que o tempo se encarregaria disto. O romance tomou corpo, a história estava interessante e os fatos reais muito bem entremeados à ficção. Mas, nada de paixão. Era uma paixão vazia, sem gosto e sem cheiro. Talvez eu me sentisse culpado em sentir uma paixão pela personagem, como se fosse uma traição, por isso eu não abria a guarda, nem para alguém ficcional. Abrir, então, para alguém de carne seria mais perigoso ainda, embora o coração esteja bem protegido, bem a cima do buraco, que é mais embaixo.
Foi quando surgiu a idéia de começar pelo fim. Como seria o fim daquele romance? Quem trairia quem, haveria traição ou seria apenas fruto do desgaste? Talvez, se pensássemos no fim, nem começaríamos nada. Mas, a vida é assim, não? Então imaginei cenas de alguém atordoado pelo abandono, pela surpresa de ser descartado.
Imaginei o sujeito, depois de ter vivido intensamente por anos a cumplicidade, os mesmos pecados, as mesmas angústias e os mesmos prazeres da vida, como, por exemplo, o milagre de ter um filho ou filha. Agora, imagine futuro leitor, esse sujeito, que se aproximou da família, dos amigos e dos hábitos da mulher ideal, sentir-se completamente só, enxovalhado? Para dar ainda mais dramaticidade, pensemos num final de ano. A família, para quem, a partir de então, ele será um canalha, um malfeitor da filha e possivelmente um pai perigoso - digamos um psicopata - reunida numa casa de veraneio com o novo genro. Abraçado à ex-mulher do monstro, diante do filho ou filha e estourando um espumante, de qualidade duvidosa, desejando um feliz ano novo para todos, menos, é claro, para o pervertido abandonado.
Vamos piorar ainda mais. O sujeito rejeitado, na cidade, que está abandonada, pegando um metrô às nove horas da noite, numa estação de trem totalmente vazia, se dirigindo para uma festa para a qual fora convidado, mas com um pequeno detalhe: não sabe nem quem são as pessoas. Gente estranha? E, neste momento ele se vê no lugar errado, onde jamais havia imaginado. No seu lugar está outro estranho, junto com sua ex-mulher e seu filho (a). A partir desta crueldade, podemos fazer o caminho contrário para a construção de uma paixão entre duas pessoas que, supostamente, nasceram uma para outra. A única diferença é que já sabemos o final. Eis a importância da ignorância, pois ela nos torna felizes e protegidos de nossa própria desgraça. Dá quase para imaginar o sujeito enforcado em plena estação São Pedro, minutos antes da meia noite. Mas, daí já estamos esculhanbando.
Voltando à Dinah e, tentando manter a magia do descobrimento, desde que a vi – na foto ela usava um lenço vermelho na cabeça - com aquele olhar triste e melancólico, comecei a imaginá-la em movimento. Ao mesmo tempo em que tinha aquele olhar quando estava contemplativa, ao começar a falar seu rosto adquiria uma intensidade fantástica. É como se ao iniciar uma conversação ela se transformasse. O rosto se ilumina e os olhos se parecem como os de criança. Neste instante, a palavra que mais a define é curiosidade. Dinah quer saber tudo sobre a vida e os hábitos de seu interlocutor, porém ele nunca saberá se ela realmente o ama. Ela sabe que sim, mas, ou ele não consegue captar isso nela ou ela não sabe ou não se importa em não transparecer. Isso o incomodará e o arruinará quando ela resolver abandoná-lo, pois não haverá variação nos modos e olhares, quando tudo terminar. Eis a ignorância novamente, desta vez, para sua desgraça. Pois o golpe vem de uma só vez e é certeiro. No meio do coração.
Agora, já posso viver essa paixão de Eduardo e Dinah vivida em medos dos anos oitenta entre as duas Berlins, seus dois mundos, o sul (da América Latina) e o leste (da Europa).
sábado, 2 de janeiro de 2010
Berlin, Berlim
O Romance. A ideia surgiu quando da minha última visita à cidade, agora unificada, onde encontrei amigos, revivi momentos e experiências da época em que lá morei, quando ainda o muro dividia as duas Berlins. Durante os anos de 86, 87 e 88 aprendi a viver naquele lugar ímpar que até hoje me comove e me alegra. Uma vez disse: "Vou morrer em Berlim". Antes disso, porém, falarei/escreverei histórias vividas naqueles tempos de divisão, quando ninguém imaginava que aquele obstáculo de concreto armado cairia tão rápido e de forma tão inusutada. Estava lá quando a usina de Chernobyl explodiu, quando o alemão Mathias pousou em plena praça vermelha com seu monomotor; quando David Bowie em show monumental diante do Reischstag (parlamento alemão) agitou centenas de berlinenses orientais com "Modern Love". Quando Regan disse a frase clássica: "Sr. Gorbachev, abra esse muro" e, quando dezenas de alemães orientais tentaram a travessia do muro, tentativas que custaram as vidas de muitos. Este é o projeto. Vivências e experiências de um tempo vivido, tanto num lado como no outro e que, agora, decido, por razões múltiplas, tornar público. Através deste blog, você poderá acompanhar todo processo de criação literária, inclusive a viagem à Berlim e Zagreb (Croacia) em fevereiro próximo, onde/quando filmarei os lugares que fazem parte do roteiro do romance. Além disso, conversarei com berlinenses de ambos os lados colhendo depoimentos daqueles tempos, que, esperamos, não voltarão mais.
A história se passa na Berlim da década de 80, quando o jovem gaúcho, em sua primeira visita à Europa, acaba, por forças misteriosas do destino, morando no lado ocidental da cidade dividida. Após sua primeira visita ao lado oriental, conhece Dinah, por quem se apaixona. Embora não exista a menor possibilidade de dar certo, o romance evolui e, aos poucos, os dois vão se conhecendo e descobrindo as diferenças e semelhanças de dois mundos tão distantes e aparentemente diferentes. Entremeada com fatos históricos importantes a história acaba seguindo um rumo inesperado, após a prisão de Eduardo diante do Checkpoint Charlie. Naquela mesma noite, três berlinenses orientais irromperão o posto de controle utilizando um caminhando carregado de pedras. Após aquela noite, Eduardo não terá mais sossego e o muro passará a ser uma obcessão sua. É neste momento que surge o plano de fuga para sua amada, porém muita coisa acontecerá antes que esse plano tenha sucesso.
Acompanhe a construção deste romance e a visita ao passado recente que mudou a história do mundo. Além disso, esta é a versão de um brasileiro que viveu, experimentou e foi experimentado naquela atmosfera de pós guerra fria.
Por fim, agradeço ao leitor mais atento e ao atento leitor.
Boa viagem para todos nós. A vida, continua.
A história se passa na Berlim da década de 80, quando o jovem gaúcho, em sua primeira visita à Europa, acaba, por forças misteriosas do destino, morando no lado ocidental da cidade dividida. Após sua primeira visita ao lado oriental, conhece Dinah, por quem se apaixona. Embora não exista a menor possibilidade de dar certo, o romance evolui e, aos poucos, os dois vão se conhecendo e descobrindo as diferenças e semelhanças de dois mundos tão distantes e aparentemente diferentes. Entremeada com fatos históricos importantes a história acaba seguindo um rumo inesperado, após a prisão de Eduardo diante do Checkpoint Charlie. Naquela mesma noite, três berlinenses orientais irromperão o posto de controle utilizando um caminhando carregado de pedras. Após aquela noite, Eduardo não terá mais sossego e o muro passará a ser uma obcessão sua. É neste momento que surge o plano de fuga para sua amada, porém muita coisa acontecerá antes que esse plano tenha sucesso.
Acompanhe a construção deste romance e a visita ao passado recente que mudou a história do mundo. Além disso, esta é a versão de um brasileiro que viveu, experimentou e foi experimentado naquela atmosfera de pós guerra fria.
Por fim, agradeço ao leitor mais atento e ao atento leitor.
Boa viagem para todos nós. A vida, continua.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Cai na real.
A frase veio como um penalt, inesperado (sempre são inesperados). Mas, até a ficha cair, ou cair na real, ainda levaria mais de 47 horas. Mas ela estava lá, a frase: "Cai na real!" O significado não é sempre o que queremos e, por esta razão, nem sempre conseguimos entender o que não queremos entender. Mas, a frase é clara. É uma declaração, explicita e reveladora. Então, tudo acabou? Parece que sim, é só você mesmo se dar conta, cair, na real. O turbilhão de espectros arrastados nos dá a sensação nítida de que o chão se abriu e 2012 chegou antes do tempo. A partir de então, começa-se a traçar novas metas, reestabelecer programas e desenterrar projetos avariados pelo tempo. Nada adianta, pois, enquanto o cérebro funciona com uma velocidade descomunal o resto se mantém estático, esperando uma ordem nova para se movimentar. A casa caiu, o mundo caiu, falta só, cair na real. Assim, vi-me descoberto, destelhado, desdenhado e completamente só, no centro das desatenções. Tudo isso aconteceu em meados de novembro. Agora, já passado mais de mês, a sensação ainda é a mesma. Um buraco enorme no meio do peito e um vazio repleto de ecos das vozes do passado.
E agora, Jari?
E agora?
Depois de dez anos de certezas, cheguei a conclusão de que nossas convicções, de uma hora para outra, são jogadas na lata do lixo. Projetar uma vida com alguém é tão débil quanto marcar um encontro sem avisar o outro. No final de 2009, terminou uma história de amor e paixão que começou no milenio passado. Não bastaram as determinações, nem tampouco as dedicações para algo que, até então, eu julgava eterna. Talvez esse tenha sido o erro, considerar perenes coisas efêmeras. O golpe, porém é forte demais, quase mais do que possamos suportar e, a dor, esta sim, nos faz prostar, refazer nossas certezas e pensar que a humildade adiada, agora, vem independentemente de nossa vontade. Assim, com o coração em feridas, e pústulas e perebas das mais variadas e desconhecidas, resolvo, neste ato ou, neste blog, declarar minha falência múltipla. Uma falência de homem, marido, amante e companheiro. Mas, a dor tem que ter um lugar, eis então, que desencavo de minhas reminiscencias um romance planejado racionalmente, onde agora, despejo, toda e qualquer amargura. Com vocês, minha história ou, se preferirem, minhas histórias.
Depois de dez anos de certezas, cheguei a conclusão de que nossas convicções, de uma hora para outra, são jogadas na lata do lixo. Projetar uma vida com alguém é tão débil quanto marcar um encontro sem avisar o outro. No final de 2009, terminou uma história de amor e paixão que começou no milenio passado. Não bastaram as determinações, nem tampouco as dedicações para algo que, até então, eu julgava eterna. Talvez esse tenha sido o erro, considerar perenes coisas efêmeras. O golpe, porém é forte demais, quase mais do que possamos suportar e, a dor, esta sim, nos faz prostar, refazer nossas certezas e pensar que a humildade adiada, agora, vem independentemente de nossa vontade. Assim, com o coração em feridas, e pústulas e perebas das mais variadas e desconhecidas, resolvo, neste ato ou, neste blog, declarar minha falência múltipla. Uma falência de homem, marido, amante e companheiro. Mas, a dor tem que ter um lugar, eis então, que desencavo de minhas reminiscencias um romance planejado racionalmente, onde agora, despejo, toda e qualquer amargura. Com vocês, minha história ou, se preferirem, minhas histórias.
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