Páginas

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A construção do desamor ou a paixão pelo fim

Quando iniciei a construção da personagem Dinah, que, na verdade, eu havia roubado do fotógrafo Luiz Eduardo Achutti. Dinah é o nome verdadeiro de uma pessoa real em quem me baseei. Uma fotografia e uma pequena história, muito bem narrada, sobre aquela desconhecida foram suficientes para elegê-la. Nada melhor do que construir algo a partir do desconhecido. O Achutti que me perdoe, mas não resisti.
Acontece que, ao tentar narrar o início do relacionamento do protagonista com sua amada, faltava-me competência narrativa. O romance empacou e por mais que eu tentasse, não conseguia. Não cheguei a ficar frustrado, e acreditava que o tempo se encarregaria disto. O romance tomou corpo, a história estava interessante e os fatos reais muito bem entremeados à ficção. Mas, nada de paixão. Era uma paixão vazia, sem gosto e sem cheiro. Talvez eu me sentisse culpado em sentir uma paixão pela personagem, como se fosse uma traição, por isso eu não abria a guarda, nem para alguém ficcional. Abrir, então, para alguém de carne seria mais perigoso ainda, embora o coração esteja bem protegido, bem a cima do buraco, que é mais embaixo.
Foi quando surgiu a idéia de começar pelo fim. Como seria o fim daquele romance? Quem trairia quem, haveria traição ou seria apenas fruto do desgaste? Talvez, se pensássemos no fim, nem começaríamos nada. Mas, a vida é assim, não? Então imaginei cenas de alguém atordoado pelo abandono, pela surpresa de ser descartado.
Imaginei o sujeito, depois de ter vivido intensamente por anos a cumplicidade, os mesmos pecados, as mesmas angústias e os mesmos prazeres da vida, como, por exemplo, o milagre de ter um filho ou filha. Agora, imagine futuro leitor, esse sujeito, que se aproximou da família, dos amigos e dos hábitos da mulher ideal, sentir-se completamente só, enxovalhado? Para dar ainda mais dramaticidade, pensemos num final de ano. A família, para quem, a partir de então, ele será um canalha, um malfeitor da filha e possivelmente um pai perigoso - digamos um psicopata - reunida numa casa de veraneio com o novo genro. Abraçado à ex-mulher do monstro, diante do filho ou filha e estourando um espumante, de qualidade duvidosa, desejando um feliz ano novo para todos, menos, é claro, para o pervertido abandonado.
Vamos piorar ainda mais. O sujeito rejeitado, na cidade, que está abandonada, pegando um metrô às nove horas da noite, numa estação de trem totalmente vazia, se dirigindo para uma festa para a qual fora convidado, mas com um pequeno detalhe: não sabe nem quem são as pessoas. Gente estranha? E, neste momento ele se vê no lugar errado, onde jamais havia imaginado. No seu lugar está outro estranho, junto com sua ex-mulher e seu filho (a). A partir desta crueldade, podemos fazer o caminho contrário para a construção de uma paixão entre duas pessoas que, supostamente, nasceram uma para outra. A única diferença é que já sabemos o final. Eis a importância da ignorância, pois ela nos torna felizes e protegidos de nossa própria desgraça. Dá quase para imaginar o sujeito enforcado em plena estação São Pedro, minutos antes da meia noite. Mas, daí já estamos esculhanbando.
Voltando à Dinah e, tentando manter a magia do descobrimento, desde que a vi – na foto ela usava um lenço vermelho na cabeça - com aquele olhar triste e melancólico, comecei a imaginá-la em movimento. Ao mesmo tempo em que tinha aquele olhar quando estava contemplativa, ao começar a falar seu rosto adquiria uma intensidade fantástica. É como se ao iniciar uma conversação ela se transformasse. O rosto se ilumina e os olhos se parecem como os de criança. Neste instante, a palavra que mais a define é curiosidade. Dinah quer saber tudo sobre a vida e os hábitos de seu interlocutor, porém ele nunca saberá se ela realmente o ama. Ela sabe que sim, mas, ou ele não consegue captar isso nela ou ela não sabe ou não se importa em não transparecer. Isso o incomodará e o arruinará quando ela resolver abandoná-lo, pois não haverá variação nos modos e olhares, quando tudo terminar. Eis a ignorância novamente, desta vez, para sua desgraça. Pois o golpe vem de uma só vez e é certeiro. No meio do coração.
Agora, já posso viver essa paixão de Eduardo e Dinah vivida em medos dos anos oitenta entre as duas Berlins, seus dois mundos, o sul (da América Latina) e o leste (da Europa).

Sem comentários:

Enviar um comentário